Você acha que os criadores brasileiros de avestruzes estão preparados tecnicamente para evitar que um surto de doença, seja ela qualquer (como por exemplo a Influenza na África) se instale no Brasil ?
Há pouco tempo atrás, a última enquete deste site abordava o título acima descrito. Checando as respostas, fiquei bastante surpresa quando a maioria (74%) acredita que “Não, o criador brasileiro não estaria preparado para combater um surto de influenza aviária no seu criatório”. Acredito que esta enquete abranja também respostas dos próprios criadores. Preocupante, não acham?
Não tenho a pretensão de prever aqui que um vírus de influenza aviária ocasione um surto no Brasil, país considerado livre de tal doença. Mas o que me deixa alarmada, é o fato dos criadores conhecerem a legislação específica, mas não estarem realmente preocupados em seguir as determinações e recomendações sanitárias necessárias para o controle de doenças.
Cabe a nós, técnicos da área, trabalhar fortemente esta questão. O que mais costumo ouvir é a pergunta “Mas precisa mesmo disso?”. Infelizmente, costumamos trabalhar “consertando” alguns erros corriqueiros no dia-a-dia. E lhes digo que é frustrante para nós, veterinários, instituir um programa sanitário e este não ser respeitado e seguido devidamente.
Vamos reforçar também o custo-benefício: implantar um programa sanitário é um investimento. Ensinar o criador e os funcionários a tomarem providências, diariamente, já é 99% do sucesso do programa. Isto se chama educação sanitária e prevenção. Depois de uma doença instalada, não há muito o quê ser feito, a não ser contabilizar o prejuízo. Lembre-se que a estrutiocultura é uma atividade produtiva, onde trabalhamos com índices produtivos e queremos no final das contas, algum lucro e não aves mortas ou abatidas, porque não foram tomadas as medidas preventivas cabíveis.
A estrutiocultura brasileira vem aumentando seus números exponencialmente. Sem importações de aves, temos hoje no Brasil o conhecimento de um plantel de 175 mil aves. Isto mesmo, senhores: 175 mil aves, dados recentes, fonte ACAB (Associação de Criadores de Avestruzes do Brasil). Estimamos então que o plantel possa chegar a 200 mil, somando os criadores “desconhecidos”, sem filiação a qualquer Associação ou outra entidade do setor.
Com o aumento do plantel, aumenta também o risco sanitário, com a alta densidade de aves num mesmo espaço. A ocorrência de doenças é um fato, ela existe sim, nós veterinários bem sabemos e convivemos com isso, e na grande maioria o que encontramos hoje são doenças desencadeadas por falhas de manejo: orientação mal dada, mal seguida ou...falta de orientação. As doenças infecto-contagiosas não são maioria, felizmente. Mas elas existem em nosso plantel, com exceção da Doença de Newcastle. Como a Influenza, não é feito tratamento. A medida a ser tomada, quando em positividade, é o abate sanitário.
Desculpem-me os “vendedores” e todos que trabalham a parte comercial do avestruz (não estou aqui para atrapalhar o negócio de ninguém...) que divulga a altos brados que a ave “não fica doente”, “é rústica” e “não precisa de cuidados nem de veterinário”. Não é bem esta a realidade, e eu como técnica da área, não teria como omitir este fato.
Já tive experiência de aves com Salmonela e Micoplasma, doenças que podem ser tratadas, toleradas pelo MAPA. Senhores criadores, não estaria na hora de dar maior importância à nossa prevenção? Sei que é difícil trabalhar com prevenção, a própria cultura do brasileiro não é preventiva. Mas na estrutiocultura, a clínica e terapêutica é dificultada, pois esta ave “esconde” bem os sinais clínicos e sintomas, de forma que quando somos chamados...costuma ser tarde demais. O surto de Influenza aviária na África do Sul fez com que houvesse um abate sanitário em massa de aves acometidas, totalizando um prejuízo de aproximadamente U$ 16,2 milhões de dólares, e a suspensão das exportações de produtos de avestruz, na ordem de U$ 200 milhões de dólares (fonte SAOBC – South African Ostrich Chamber of Business).
Imaginem vocês qual seria então o impacto econômico que teríamos se uma doença destas chegasse às nossas criações? Sem a implantação de um controle sanitário efetivo, sem a orientação do médico veterinário responsável, e também sem que o criador considere o controle algo realmente importante...Estão lembrados do abate de aves brasileiras com suspeita de Newcastle, logo no início da criação, em meados de 1995/1996?
Vamos dar mais importância ao que não “vemos”!? Vírus, bactérias e outros patógenos ainda estão presentes no nosso dia-a-dia da estrutiocultura, ainda temos taxas de mortalidade a serem reduzidas, precisamos instituir um protocolo de manejo adequado, um controle sanitário efetivo...chega de correr atrás do prejuízo!
A normativa do MAPA está a disposição para quem precisar....Basta seguir as normas básicas sugeridas. E acreditar que a prevenção pode sim evitar a entrada e a disseminação de doenças, quaisquer que sejam elas, nos criatórios.
Tenhamos consciência.....para acreditar e fazer com que esta atividade continue tendo sucesso!
Fonte: www.portaldoavestruz.com.br