Tenho acompanhado nos últimos anos, exercendo minha profissão de consultor em produção animal, a transformação notável por que passa a atividade da ovinocultura.
Após um declínio rápido e aparentemente sem volta do rebanho de ovinos no Brasil, provocado principalmente pela desvalorização da lã no mercado internacional, e que causou estragos significativos na já combalida economia da metade sul do Rio Grande, eis que os ovinos se tornam novamente vedete da pecuária.
Esta reviravolta se deu principalmente pela valorização da carne ovina nos mercados mais exigentes do Brasil, o que provocou uma onda de importações do produto que chegou a atingir mais de 15 milhões de dólares anuais neste início do século XXI.
Quem primeiro se beneficiou desta valorização da carne ovina foram os locais onde estão concentrados os rebanhos de ovinos deslanados, próprios para corte e ainda por cima detentores de uma carne magra, com pouca ou nenhuma gordura, bem ao gosto das tendências modernas de consumo de alimentos.
Sendo assim, espalhou-se pelos estados do nordeste do Brasil, principalmente Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte uma verdadeira corrida pela obtenção de animais de qualidade genética superior e que pudesse servir de suporte para a produção de animais de corte mais eficientes, a partir da grande base de animais deslanados existentes na região, das raças Santa Inês, Morada Nova e Somalis, entre outras, às quais foi incorporada uma raça sul-africana especializada, chamada Dorper.
Neste aspecto, a raça Santa Inês ganhou a preferência dos produtores e notoriedade pelos altos preços alcançados em leilão por seus exemplares mais valorizados. No final do mês de agosto passado, um carneiro de apenas 30 meses foi vendido por R$ 448 mil, estabelecendo o novo recorde da raça e da espécie.
Passado o impulso inicial da ovinocultura de corte no nordeste, foi a vez do centro-oeste, principalmente Mato Grosso e Mato Grosso do Sul se tornarem os locais onde a ovinocultura de corte encontra terreno para ganhar volume de produção, pois estes estados ainda dispõem de áreas extensas e relativamente baratas para a exploração pecuária.
Provavelmente pela forte imigração gaúcha nestes 2 estados e pela afinidade tradicional de nosso povo com estes pequenos ruminantes, o rebanho teve um forte crescimento nos 3 últimos anos, também alavancado pela deslanada Santa Inês, mas aqui já cruzada com outras raças de corte, desta vez portadoras de lã e mais tradicionais no Rio Grande do Sul, como Suffolk, Texel e Ile de France.
Os leilões se multiplicam pelo interior dos 2 estados e só aqui no Mato Grosso do Sul eu consegui contabilizar 10 leilões de Santa Inês em cidades diferentes durante este ano de 2004. O governo do estado deu isenção de ICMS para a cadeia produtiva da ovinocultura e o rebanho já está alcançando cerca de 600 mil cabeças, um dos 5 maiores do país.
No outro Mato Grosso, no sul da Chapada dos Parecis, tenho o privilégio de assessora a instalação de um grande projeto de ovinocultura, que tem a meta de chegar a 1.000 animais abatidos por dia, provenientes de uma espécie de consórcio de produtores, que estão montando ou adaptando fazendas especialmente para esta finalidade.
Talvez o grande atrativo para os pecuaristas que estão buscando esta alternativa seja o preço da carne ovina. A arroba (15 kg de carcaça) de boi mal alcança os R$ 60 enquanto os ovinos são vendidos a pelo menos R$ 85 a arroba. Se o animal abatido for um cordeiro, o preço da arroba pode chegar a R$ 110.
Por estes motivos, a produção de ovinos de corte pode ser uma opção importante para aumentar os ingressos nas propriedades pequenas e médias, que não conseguiriam obter escala de produção com a bovinocultura.
Autor: Eng. Agr. André
Sorio - Consultor privado de empresas rurais em diversos estados do Brasil
e-mail: andre@sistemavoisin.com.br
Fonte: http://www.portalcarazinho.com.br/