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Tilápias Capixabas

Além da criação dos camarões de água doce, o Espírito Santo – conhecido por ser um estado em grande desenvolvimento no ramo da aqüicultura – desponta agora para uma ação pioneira no país. O Estado capixaba irá investir alto no melhoramento genético de tilápias tailandesas (linhagem Thai-Chitralada.

Além do Estado ter agregado às áreas de cafeicultura, principal atividade na região norte do Espírito Santo, tanques lotados de camarão, recentemente, uma outra novidade surgiu nos viveiros capixabas: são as famosas tilápias tailandesas geneticamente melhoradas.

No distrito de Pedro Palácios, Pólo agroturístico do município de Ibiraçú / ES às margens da rodovia BR 101 (60 Km da capital do Estado), encontra-se implantado há três anos o Projeto Bioalevinos. Segundo os coordenadores, o intuito é produzir alevinos de qualidade diferenciada para todo o Brasil e promover o desenvolvimento do mercado regional, suprindo suas carências em produtos e serviços.

Fruto de uma parceria entre CTA – Centro de Tecnologia em Aqüicultura e Meio Ambiente, empresa atuante há doze anos no desenvolvimento e difusão de tecnologia nos diversos segmentos das cadeias produtivas aquícolas, investidores do Estado e o SEBRAE/ES, o projeto Bioalevinos busca o melhoramento genético na produção de alevinos (filhotes de peixes) sexualmente revertidos de tilápia; sempre respaldado em parcerias com instituições de ensino e pesquisa do Espírito Santo.

O programa de melhoramento genético batizado de “Tilápia Capixaba” teve suas atividades iniciadas no mês de agosto de 2004.Os trabalhos, coordenados pelo professor do departamento de Biologia da FAESA, Dr Aldrin Pires, e pelo Diretor Técnico da Bioalevinos, Armando Fonseca, concentraram esforços no aumento do rendimento em filé, na velocidade de ganho de peso do peixe e automaticamente na redução dos índices de conversão alimentar da linhagem, resultados constantemente buscados pelo mercado, por estarem diretamente ligados ao retorno financeiro dos tilapicultores e das indústrias.

Mas, como chegar a tais resultados? De acordo com os coordenadores do projeto, a resposta está no DNA, uma das principais ferramentas tecnológicas utilizadas pelos pesquisadores no desenvolvimento do Programa. Através da análise do DNA dos peixes com utilização de marcadores moleculares e avaliação genética e citogenética, realizadas como apoio do Laboratório de Biologia Molecular da FAESA, é que os pesquisadores desenvolvem os trabalhos acompanhando e selecionado individualmente as matrizes de genótipo superior, metodologia com a qual busca-se alcançar os resultados desejados.

Profissionalização
Sem dúvida, uma inovação no ramo da aqüicultura já que com a profissionalização da atividade de piscicultura no Brasil, os produtores (empresários deste ramo) estão se conscientizando da importância da qualidade na aquisição de insumos ou contratação de serviços técnicos.Entre estes, tem se observado maior rigor na escolha dos alevinos e da ração a serem utilizados na produção de peixes para indústria ou pesque-pague.

O pequeno produtor também não fica de fora. De acordo com os responsáveis pelo projeto, quando se inclui no critério de seleção características como taxa de sobrevivência, resistência a doenças, conversão alimentar, bom padrão de acabamento muscular (rendimento de filé), dentre outros fatores, os índices zootécnicos da criação irão melhorar, possibilitando ao produtor obter um melhor preço pelo seu produto, além, é claro, de diminuir os custos com ração, reduzindo desta forma o custo de produção do peixe.

Em busca do melhor
Atualmente, boa parte das unidades de beneficiamento de tilápias, que produzem o filé deste peixe, remuneram o produtor com base em critérios como uniformidade do lote e rendimento do filé, como é o caso da ACA – Associação Capixaba de Aquicultores, que instalou um entreposto no município de Muniz Freire (região sul do Estado). Esta política de remuneração adotada na agroindústria leva a uma constante busca pela profissionalização na produção de peixes, “premiando” economicamente o produtor que obtém os melhores resultados em sua criação.

A busca por melhores desempenhos zootécnicos e econômicos na produção, passa invariavelmente pela utilização de insumos de qualidade diferenciada: “Os alevinos respondem atualmente por cerca de 5 a 7% dos custos de produção da tilápia. Em algumas ocasiões, buscando economias ínfimas por insumo, tilapicultores experimentam aumentos tão exorbitantes nos custos de produção de um cenário superavitário ao prejuízo”, diz Armando Fonseca, coordenador técnico do Programa “Tilápia Capixaba”.

Tecnologia a serviço da qualidade
A técnica da reprodução exige maiores investimentos iniciais em equipamentos, infra-estrutura e tecnologia. No entanto, apontam os pesquisadores, pode representar a garantia de maior eficiência na reversão sexual.

De acordo com os pesquisadores, nos últimos anos houve um aumento significativo no cultivo de peixes de água doce e em especial de tilápias, que atualmente são o “carro chefe”, tanto da piscicultura nacional quanto mundial. Estes avanços foram possíveis devido à melhoria  das técnicas de cultivo, do monitoramento da qualidade da água e da qualidade e diversificação das rações.

Com este crescimento,outras formas forma necessárias para melhorar ainda mais o produto final e por isso novos investimentos vêm sendo realizados na área de produção de alevinos de tilápia tailandesa da linhagem Thai-Chitralada, revertidos sexualmente através da técnica de coleta de ovos na boca das fêmeas e incubação dos mesmos em laboratório.

Com a tecnologia de incubação artificial de ovos de tilápias, fases importantes da reprodução, como a desova, a eclosão e a larvicultura que inicialmente ocorriam dentro dos viveiros sem a vistoria do larvicultor, não acontecem mais. Em muitos casos, no sistema tradicional conhecido como “coleta de nuvens”, as larvas não apresentavam tamanhos ideais para uma boa eficiência do processo de reversão, comprometendo a qualidade dos lotes de alevinos, entre outras desvantagens, como: coletas ineficazes,impossibilidade de rastreamento genético na produção e a freqüente ocorrência de retrocruzamentos, ou seja, larvas esquecidas no ambiente acabam por acasalar com a geração anterior, causando desequilíbrio genético.

Na primeira fase do Programa Tilápia Capixaba, por exemplo,o foco principal está no aumento do rendimento em filé da linhagem.Ao longo da execução do Programa, provas de abate são realizadas periodicamente na unidade de beneficiamento da Associação Capixaba de Aquicultores, visando acompanhar o ganho em rendimento a cada geração. Com o novo estudo, a expectativa é que nesta primeira fase haja um incremento de 10 a 20% no rendimento da espécie, podendo atingir, em fases posteriores cerca de 40% de rendimento de filé, em detrimento à realidade atual de 33 a 35% (médias obtidas em linha de abate industrial).

Processo de reprodução
Para a realização da reprodução, lotes de reprodutores de tilápias são acondicionados em “hapas” (tanques confeccionados com malha de mosquiteiro e colocados dentro de viveiros), onde ser realizarão o acasalamento e posterior incubação dos ovos na boca das fêmeas.Estes ovos serão coletados e distribuídos em incubadoras climatizadas até que eclodam,para depois serem dispostos em baterias de bandejas com renovação de água e controle de temperatura para a absorção do saco vitelínico e realização do treinamento alimentar. O próximo passo será a distribuição dessas larvas em hapas especiais onde permanecerão por 30 dias recebendo ração especial para a etapa de reversão sexual.

De acordo com o diretor técnico da Bioalevinos, Armando Fonseca, a reversão sexual é possível devido ao fato de que nos primeiros dias de vida das larvas de tilápia (logo após a eclosão dos ovos) as gônadas (ovários e testículos) das mesmas ainda não estão desenvolvidas, não apresentando diferenciação morfológica entre machos e fêmeas, apesar de seu sexo já estar geneticamente definido desde a fecundação. A diferenciação das gônadas ocorre nos primeiros dias de vida dos animais. “A reversão sexual consiste basicamente na difereciação gonadal, oferecendo rações com hormônio masculinizante durante os primeiro dias de alimentação das larvas (após a absorção do saco vitelínico, que é a reserva nutricional dos animais durante os primeiros dias de vida). Sendo assim, ao final de um processo de reversão 100% eficiente, teremos machos XY e machos XX (morfologicamente machos, mas geneticamente fêmeas).

Asvantagens garantem os pesquisadores, são boas garantias de lotes de alevinos totalmente machos (99 a 100% reversão), homogêneos em termos de tamanho e crescimento, melhores índices de ganho de peso e conversão alimentar, resistência a agentes causadores de doenças e ao manejo, maior tolerância e variações nos parâmetros de qualidade da água,e,ainda proporciona ao laboratório controlar a origem dos alevinos e assim realizar programas de melhoramento genético.

Em se tratando de aquisição de alevinos, o rigor na escolha do lote é extremamente relevante ao sucesso do cultivo. Características relativas à qualidade (e sanidade) do lote, tais como a uniformidade no tamanho dos alevinos, o brilho da mucosa do corpo, ausência de manchas ou ectoparasitas sobre escamas e olhos,integridade das nadadeiras e a “vivacidade” (resposta rápida aos estímulos externos) dos peixes, devem ser criteriosamente observados na hora da compra.Estas características são de fácil observação presencial, e devem ser levadas em consideração na aquisição de alevinos de quaisquer espécies.

Predominância dos machos
Tecnologia desenvolvida já permite ao produtor selecionar a grande quantidade de fêmeas no viveiro.

Quando se trata da aquisição de alevinos sexualmente revertidos de tilápias, existe outro fator tão importante ao sucesso do cultivo quanto a sanidade do lote: sua taxa de reversão sexual,ou seja, a porcentagem de alevinos fenotipicamente machos existentes no plantel.

Esta preocupação é decorrente das aquisição de grande quantidade de fêmeas (acima de 3% do lote) nos viveiros de engorda de tilápias reduz drasticamente o desempenho produtivo e econômico do lote em questão,devido ao menor desempenho zootécnico das fêmeas (menor crescimentos) e principalmente ao recrutamento,que é o resultado da reprodução dentro do viveiro de engorda.

O recrutamento gera competição por alimento e desuniformidade dos peixes produzidos, pois os filhotes não chegam atingir tamanho comercial ao fim do cultivo, mas mesmo assim, consomem a valiosa ração que deveria ser convertida em peixes deporte compatível às exigências do mercado, aumentando assim o custo de produção do lote.

O grande problema é que o produtor só vai saber se os alevinos foram eficientemente revertidos após 2 ou 3 meses de cultivo, quando atingem a maturidade sexual, ou a seu término, sendo que em ambas as situações o retorno do investimento ao longo do cultivo já está comprometido.

Daí a importância de se verificar a procedência dos alevinos, conhecer o laboratório onde são produzidos através do processo de incubação artificial (com coletas de ovos na boca das matrizes),o que pode proporcionar até100% de reversão.

Para o produtor e para a indústria, o que vai realmente importar é se o peixe utilizado vai apresentar um bom desempenho zootécnico, possibilitando a toda cadeia produtiva um melhor desempenho econômico em suas atividades, seja na engorda, beneficiamento ou comercialização.

Cuidados com os alevinos
Verificados todos os indicativos de qualidade do lote adquirido, compete ao produtor fazer bom uso dos alevinos, e isso começa na saída do laboratório, com o transporte e soltura dos peixes. O transporte dos alevinos deve ser realizado nos horários mais frescos do dia, utilizando-se do caminho mais curto do laboratório à propriedade. Recomenda-se também, a utilização de panagens (cobertores) molhados ou até mesmo outro tipo de substrato como aguapé umedecido (aquela planta flutuante que costuma invadir viveiros e represas) sobre as sacolas no transporte de caçamba, promovendo perda de calor para o meio e consequentemente proporcionado uma temperatura mais amena ao longo do trajeto.

Chegando à propriedade, os animais devem passar por um período de aclimatação, que consiste em colocar os sacos plásticos fechados, boiando na água do viveiro por um período de 15 a 20 minutos, objetivando o equilíbrio da temperatura entre as águas de dentro e de fora do saco, evitando assim o choque térmico.

A temperatura da água tanto no processo de produção de alevinos como na engorda é determinante para a sobrevivência e o desenvolvimento dos peixes. No laboratório a manutenção da temperatura em torno dos 27º C garante uma melhor eclosão dos ovos, bem como uma alta sobrevivência das larvas.A tilápia, por se tratar de espécie tropical, desenvolve-se melhor em águas com temperatura variando entre 26 a 30º C . No entanto, por ser um peixe muito rústico e bastante domesticado, seu cultivo comercial no Brasil se faz viável em temperaturas que variam de 20 a 30º C, do Rio Grande do Sul ao extremo norte do País.

Depois de igualadas as temperaturas, é hora de proceder a aclimatação química, ou seja, deve-se adicionar lentamente às sacolas pequenas quantidades de água do viveiro. Este procedimento é extremamente importante pois irá permitir que os alevinos adaptem-se às novas condições de pH, oxigênio, salinidade e concentrações de compostos e íons diversos, evitando assim o choque químico.

Estrutura do projeto
O empreendimento encontra-se localizado no município de Ibiraçu, ao lado do Mosteiro Zen Budista, no Distrito de Pedro Palácios, distante 6 KM da Rodovia BR 101, a qual serve como importante canal de divulgação e de distribuição de nossos produtos. Por ser uma região de clima tropical e baixa atitude (40 m do nível do mar), com inverno ameno, possibilita a reprodução da tilápia o ano todo.

O Programa de Melhoramento Genético “Tilápia Capixaba” conta com os apoios do CTA – Centro de Tecnologia em Aqüicultura e Meio Ambiente (empresa que atua a 12 anos no mercado capixaba), do SEBRAE/ES, e do SICOOB, sendo que a Bioalevinos é atualmente o laboratório oficial de fornecimento de alevinos do Programa de Piscicultura Integrada
 “Peixe na Mesa”, desenvolvido pelo SEBRAE/ES há seis anos no Estado.

Fonte: Revista Escala Rural – nº 39 – maio 2005

 



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