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Uma concepção mágica da relação solo – planta
A teoria biodinâmica da relação solo-planta explica toda a abordagem da agricultura organoecológica. Tão boa quanto qualquer teoria que fundamente a ciência moderna, possui pontos controversos, e suas concepções poderiam ser comprovadas cientificamente.
O que aconteceria no solo se faltasse algum nutriente?
Segundo a visão biodinâmica, se ocorresse falta de cálcio, os pêlos absorventes das raízes, tais como afinadíssimos sensores, acusariam a anormalidade – como a nossa língua acusaria a falta de açúcar no cafezinho. Rapidamente, a informação seria transmitida de célula para células até as folhas. Como verdadeiros laboratórios e células fotossensíveis que são, as folhas, utilizando-se da energia solar, da água, do gás carbônico e de elementos minerais, começariam a produzir substâncias orgânicas especiais: os hormônios e as enzimas.
Os hormônios e as enzimas representariam uma resposta extremamente ajustada ao estímulo recebido pela raiz. E, como uma reação em cadeia, seria rapidamente suprida a deficiência de cálcio. Liberados no solo pelas raízes, os hormônios e as enzimas estimulariam sempre na exata medida, dentre milhares de organismos, apenas os que teriam a incumbência de resolver a carência de cálcio. Multiplicada a sua população em questão de horas, esses “especialistas” começariam a produzir enzimas ainda mais poderosas que catalisariam a produção do elemento cálcio.
Como ocorre essa mágica?
As bactérias Rhizobium, que vivem nas raízes das leguminosas, retiram o nitrogênio do ar para formar suas proteínas.Os fungos micorriza tornam os fosfatos assimiláveis pelas plantas, que de outra forma seriam inaproveitáveis. As bactérias azóticas e as algas azuis recolhem também o nitrogênio da atmosfera, transformando-o em proteína.Quando estes organismos morrem, seus cadáveres ficam à disposição das bactérias nitrificantes, que por sua vez transformam o nitrogênio das proteínas em nitratos, forma ideal para as plantas o assimilarem.
A mágica não acaba aí. Substâncias grosseiras e abundantes na natureza têm os seus átomos modificados, transformando-se em outros que estejam em falta. Assim, os silicatos das argilas e das areias seriam transmutados em cálcio, magnésio ou lítio, dependendo da qualidade do estímulo inicial. Essas transformações atômicas não podem ser ainda explicadas pela ciência moderna. Pode-se, entretanto, fazer uma analogia: o arrombador grosseiro explode um cofre às custas de dinamite; Sherlock Holmes ou Arsène Lupin, usando apenas o sim do mecanismo e a ponta dos dedos, desarticulam o segredo, e o resultado também seria o cofre aberto.
Parece que a Natureza dotou esses admiráveis alquimistas do solo de habilidades que nós humanos, desconhecemos ou não queremos reconhecer.
Indícios da existência das transmutações atômicas na natureza:
- bactérias que vivem em associação com as leguminosas fixam o nitrogênio do ar, transformando-o em nitrogênio orgânico. O mesmo processo em laboratório consome tamanha quantidade de energia que o seu uso, na prática, chega a ser inviável, mesmo para os países ricos.
- As fezes das minhocas apresentam um teor de nitratos, fósforo e cálcio muito superior ao dos materiais dos quais elas se nutrem. De onde elas retiram esses elementos?
- As rochas matrizes de solo são geralmente muito mais pobres em microelementos do que os solos delas originados. De onde vêm esses microelementos?
- A carência extrema de potássio nas plantas é resolvida pela adição de sódio ao solo. A ciência tem explicado que o sódio pode realizar as funções do potássio – ou será que ocorre a transmutação do sódio em potássio?
- Os animais carentes de fósforo, quando soltos na natureza, procuram determinados sítios, os “barreiros”, ricos em carbonatos de cálcio ou óxido de ferro. Comendo terra, pelo menos aparentemente, solucionam as suas carências.
É interessante notar que a ciência moderna, tão voltada para a busca de verdades, seja tão simplista com estas questões.
Algumas evidências em laboratório, das transmutações atômicas provocadas por seres vivos
Antoine Lavoisier, considerado o pai da química moderna, trabalhando em laboratório com substâncias inorgânicas, estabeleceu que estas, tais como a conhecemos podem transforma-se em outras por meio da recombinação dos elementos que as constituem.Os elementos (átomos), entretanto, permaneceriam rigorosamente os mesmos. A cal virgem (óxido de cálcio), quando misturada à água, sempre se transformaria em cal extinta (hidróxido de cálcio), outra substância, com propriedades bem diferentes. Os seus átomos constituintes continuariam, entretanto, exatamente os mesmos e na mesma quantidade que as suas substâncias originárias.
A primeira perda na concepção criada pela Lei de Lavoisier ocorreu quando se descobriu a radiação. Na natureza, em verdade,cerca de vinte elementos transformam-se espontaneamente em outros. Entre eles estão o rádio, o urânio, o césio.
A partir daí, inúmeros pesquisadores entenderam o enorme alcance prático do fenômeno de um elemento ou átomo dar origem a outro, de forma natural e sem a liberação de calor e radiações perigosas, como ocorrem nas explosões nucleares que o homem produz. Descobriram ainda que o fenômeno da transmutação de elementos já era conhecido nas antigas civilizações. Os famosos alquimistas da Idade Média, muitos deles condenados por feitiçaria e até hoje alvos do desprezo de seus contemporâneos, trabalharam exaustivamente com a transmutação elementar. Na atualidade, especialmente dois químicos franceses, Pierre Baranger, da Escola politécnica de Paris, e Louis Kervran, que em 1962 escreveu o polêmico “Transmutações Biológicas”, dedicaram-se a reconstruir inúmeras experiências com transmutações relatadas pelos antigos alquimistas.
Em 1963, entre muitas constatações sobre o assunto, Pierre Baranger provou de forma incontestável que, durante a germinação de sementes de leguminosas numa solução de sal de manganês, este elemento desapareceria, surgindo,em seu lugar, o ferro.
Kervran constatou que suas galinhas eram extremamente ávidas por engolir grânulos de mica,mas que nas suas fezes este material desaparecia.As cascas dos ovos continham muito mais cálcio do que a aveia da qual se alimentavam e que esse elemento não poderia provir do solo do galinheiro, extremamente pobre, nem ser retirado do organismo das aves. A única explicação possível para Kervran foi a de que o silício, abundante na mica, era transformado em cálcio.
Um outro pesquisador francês contemporâneo, Henri Splinder, constatou que uma espécie de alga do gênero Laminaria era capaz de produzir iodo a partir dos elementos do ar e de água destilada. Pesquisando obras já quase esquecidas nas prateleiras das bibliotecas, Splinder constatou que um cientista alemão chamado Vogel comprovara que as sementes de agrião germinadas emsolução de água destilada produziam enxofre.As cinzas das sementes, após sua germinação, continham o dobro deste elemento.Aprofundando-se ainda mais em textos, como a obra do barão da cidade de Hanover: A origem das substâncias inorgânicas, publicada em 1873. Nela o barão Albert von Herzeele, relata constatações impressionantes da existência das transmutações dos elementos pelas plantas. Herzeele é categórico em afirmar que estas, “além de extraírem o alimento do solo e do ar, estão continuamente dando origem à matéria!”
Surgiria então a questão: porque o milho semeado em solos pobre não transmuta os nutrientes que lhe são necessários e prospera satisfatoriamente?
A teoria biodinâmica da relação solo-planta explicaria a questão sem, entretanto, invadir a lei de Lavoisier: os códigos genéticos das plantas modernas foram desenvolvidos em laboratórios, tendo como nutrientes apenas os adubos químicos. Nessas condições, funcionaria a Lei da Conservação da Matéria, enunciada por Lavoisier. Além da incompetência dessas espécies artificialmente desenvolvidas, elas não poderiam contar com a ajuda dos organismos do solo para realizar a maioria das transmutações. Estando a maioria das lavouras submetida à ação esterilizante do sol, elas se tornam extremamente pobres em minhocas, fungos, bactérias e algas, essenciais ao processo.Nesses solos degradados, as condições são semelhantes às dos laboratórios, onde predominam as reações puramente químicas, regidas pela lei de Lavoisier. Um nível máximo de transmutações atômicas existira apenas na exuberância vital da floresta ou em sistema de cultivo que preservasse seus mecanismos.
Se cobertos com mulche vegetal, os solos deteriorados se restauram. O biodinamismo se desenvolve; surge a vida, manifestada pelo aparecimento dos microorganismos, minhocas, colêmbolas, etc. Só então, a transmutação será possível em sua plenitude.
Permanece estranho o desinteresse dos cientistas modernos diante da importância destas possibilidades para o futuro da humanidade. Enquanto isso, cubramos o nosso solo com mulche vegetal.
Algumas implicações práticas da teoria biodinâmica
Uma vez admitida a possibilidade da ocorrência das transmutações atômicas na natureza, como anteriormente exposto,algumas implicações agrícolas tornam-se inevitáveis:
- a biologia natural do solo tem de ser preservada para que a fertilidade do solo se mantenha naturalmente;
- o mulche vegetal é indispensável na agricultura; sem ele a vida desapareceria do solo;
- é indispensável a adaptação local da planta para que haja entendimento (estímulos e respostas) entre ela e o meio – é importante que os códigos genéticos das culturas a serem associadas sejam familiares entre si e com relação ao meio ambiente (solo, clima, insetos, etc); daí a importância da adaptação local das variedades, o que lhes possibilita estabelecer uma correspondência genética necessária e uma perfeita combinação;
- uma nutrição vegetal equilibrada só poderá ser proporcionada pelos mecanismos naturais de autofertilização – isto se deve ao fato de que, somente neste caso, o fornecimento de qualquer nutriente será rigorosamente correspondente em quantidade e qualidade ao estímulo emitido pela planta, em função da carência específica;
- a introdução de plantas ou organismos no solo, proveniente de condições ecológicas diferentes, será, em princípio, problemática – a falta de uma familiaridade de seus códigos genéticos com a biologia, a química e a física do meio impede-lhes uma perfeita comunicação. Como ocorreria com um estrangeiro ao tentar comunicar-se num país do qual não soubesse o idioma.
Por: João Francisco Neto
Fonte: Manual de
Horticultura Ecológica – Auto suficiência em pequenos espaços. São Paulo: Nobel,
1995 (pág 25 a 30).
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