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Fertilizar é introduzir energia no solo
Tudo no mundo é energia. De divisão em divisão iremos chegando a partículas cada vez menores e mais simples da matéria, até chegarmos ao indivisível. Além do átomo, a menor partícula característica de qualquer elemento, deparamos-nos com os prótons, elétrons e neutros absolutamente iguais. O que determina a natureza de cada elemento é a proporção segundo a qual essas partículas energéticas se reúnem. Mas permanece como um fato o de que as substâncias têm todas, uma mesma e única origem: a energia.
Se o arranjo e a proporção das partículas energéticas de um átomo de uma substância forem mudados, o átomo se modificaria. O chumbo poderia ser transformar em ouro. Os antigos alquimistas e agricultores da antroposofia sempre acreditaram que, na natureza,os organismos do solo conseguiriam dirigir essas transformações, ou “transmutações atômicas”, se tivessem energia à disposição e ambiente favorável a seu crescimento.A ‘fome’ de determinado nutriente determinar-lhes-ia a iniciativa, por exemplo de transformar o silício, elemento abundante no solo, em cálcio, nutriente raro na maioria dos solos tropicais.
No meu entendimento, fertilizar o solo é fornecer-lhe a energia do sol (e as condições de microclima) para que sua biologia (minhocas, microorganismos, etc.) a transforme em qualquer nutriente, de acordo com a necessidade da planta.Na agricultura ecológica, a fertilização é alcançada com o uso do mulche vegetal como cobertura, e, se necessário, incorporando o composto orgânico como auxílio para a planta.
Constatei a superioridade do uso do mulche “do ponto de vista da planta”, quando parte das raízes da batata doce desdenhou a adubação química dos leirões convencionais e se dirigiu para debaixo do capim gordura leirado ao lado, produzindo ali os melhores tubérculos. Enquanto isso, os tubérculos produzidos nos leirões quimicamente adubados eram pequenos, descoloridos e atacados por “broca”.
A visão ecológica
Para o agricultor ecológico,fertilizar o solo significa desenvolver e
proteger sua biologia. Na prática, implica proporcionar aos organismos que nele
habitam um microclima favorável – umidade, temperatura e sombreamento – além de
energia e nutrientes.O agricultor ecológico sabe que, ao preservar a vitalidade
do solo, produzirá plantas vigorosas. É por isso que ele se preocupa antes com o
solo e depois com a planta.A agricultura moderna, ao contrário, preocupa-se
muito com a planta e com o lucro que ela pode proporcionar, mas não sabe cuidar
do solo. O defensivo,o fertilizante e o calcário são usados em benefício da
planta, enquanto o solo é relegado a um segundo plano, exposto à erosão,
compactação, insolação, ressecamento e lixiviação.
No nosso modelo agrícola natural – a floresta -, o mulche vegetal, além de criar um microclima favorável, fornece para os organismos do solo principalmente energia – assimilada pelo sol no processo de fotossíntese – carbono e sais minerais.Como subprodutos da digestão do mulche, esses organismos liberam no solo inúmeras substâncias que o tornarão adequado ao crescimento das plantas:
- o humo ou húmus;
- nutrientes minerais;
- vitaminas, hormônios e antibióticos vegetais.
O húmus, ou humo, é uma substância de cor castanho-escuro, constituída basicamente por uma mistura de ácidos orgânicos que fazem as partículas do solo reunirem-se em torrões, nos quais os nutrientes encontram-se protegidos da lixiviação por entre os quais as raízes penetram facilmente. Assim, são aumentados a retenção da umidade, o arejamento e a resistência às grandes elevações de temperatura.
Muitas vezes, a prática da fertilização resume-se a proporcionar ao solo uma permanente cobertura com mulche. Na maioria das vezes porém, os solos se encontram tão maltratados que práticas auxiliares se fazem necessárias.
As principais práticas
auxiliares do cultivo ecológico são:
- uso do composto orgânico de “incorporação”;
- adubação mineral, que consistirá basicamente em microelementos e pó de rochas
naturais (calcário, fosfato de rocha, xisto, basalto, micas potássicas);
- eventual uso de fertilizantes e microelementos químicos nos grande cultivos,
quando seu emprego deverá subordinar-se a critérios ecológicos, como a
utilização de fertilizantes menos solúveis, de dosagens baixas, de parcelamento
das aplicações e de redução gradativa até sua supressão;
- “capoeiramento” regenerativo, que na pequena horticultura significa permitir
que o solo descanse temporariamente sob a cobertura de ervas espontâneas
(erradamente conhecidas como “daninhas”);
- capina seletiva.
É importante frisar, entretanto, que a cobertura do solo com mulche vegetal é a prática de fertilização definitiva na agricultura. Sem utilizá-la, nenhum sistema agrícola poderá ser considerado ecologicamente satisfatório, a nosso ver.
A prática ecológica é direcionada no sentido de que a produtividade do solo seja mantida apenas pelo uso do mulche vegetal. Som a influência do mulche, o solo desenvolverá o mesmo biodinamismo existente nas florestas. Será harmonioso o intercâmbio entre as plantas, os organismos do solo e sua fase mineral. Disso resultará a preservação da fertilidade.
Para os iniciantes na abordagem organo-ecológica, a questão mais freqüente é: Como começar?
Na maioria das vezes, o agricultor e solo estão despreparados para o cultivo orgânico. O primeiro, por quase sempre desconhecer a prática agrícola orgânica. O solo, por estar dependente do uso de fertilizantes químicos e ter os seus mecanismos de auto-regeneração da fertilidade desestruturados. Em geral, a única possibilidade viável, especialmente para grandes áreas, é a mudança gradual. O agricultor irá, aos poucos, retirando os insumos químicos e as práticas inconvenientes, substituindo-os por insumos orgânicos e práticas ecológicas.
Na horticultura caseira, é mais fácil uma mudança imediata, por não se depender de grandes quantidades de insumos orgânicos e por eventuais surtos de pragas poderem ser controladas por simples catação manual.
Mesmo para o agricultor que se decidiu pela alternativa puramente orgânica, é interessante que ele assimile também as possibilidades dos insumos minerais, inclusive químicos. Dentro de critérios ecológicos, eles poderão nos ajudar a caminhar para uma prática exclusivamente natural. O caso da adubação verde, mesmo não sendo uma prática muito valiosa nos trópicos, ilustra bem essas possibilidades. Inicialmente, o solo é calcareado e a seguir é semeado com boas espécies produtoras de massa vegetal, geralmente, leguminosas como mucunas, crotalárias etc. Estas serão adubadas com uma fonte química de fósforo e potássio a fim de que produzam o máximo de matéria vegetal. Quando essa biomassa for incorporada, servirá de adubação orgânica às futuras culturas. É bom lembrar que o agricultor ecológico limitar-se-ia apenas a roçar as leguminosas, deixando-as sobre o solo como mulche, sem entretanto, incorporá-las.
Por: João Francisco Neto
Fonte: Manual de Horticultura Ecológica – Auto suficiência em pequenos
espaços. São Paulo: Nobel, 1995 (pág 39 a 42).
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