Na agricultura orgânica comumente praticada, a adubação do solo constitui-se na incorporação de composto “de incorporação”, estrume, palhada das culturas e adubos verdes. Estes últimos são, geralmente, da família das leguminosas. Mais raramente são também utilizados o biofertilizante, o caldo biológico e o estrume líquido em irrigação.
Do ponto de vista ecológico, estas práticas são insuficientes. Geralmente não envolvem o principal cuidado que o agricultor deveria ter com o solo: a cobertura com mulche vegetal. Além disso, a incorporação envolve uma inversão das camadas do solo, geradora de severos distúrbios e mortandade na população de organismos úteis.
Na pequena horticultura, o uso da cobertura permanente com mulche vegetal e do composto “de incorporação” constitui as práticas orgânicas mais viáveis e saudáveis.
A cobertura com mulche
O fornecimento de mulche ao solo poderá ser feito por meio de diversas
estratégias, dependendo do tamanho da área e do tipo de cultura.
Para grandes áreas, culturas de cereais e arbóreas, o mulche vegetal deverá ser produzido no próprio local (seria trabalhoso e inconveniente transportá-lo de grandes distâncias nos volumes requeridos). Tomando como exemplo a cultura do milho, o mulche deverá ser formado pela sua palhada e a de alguma outra planta, como a mucuna preta. Há uma época apropriada para semear a mucuna,para que não seja prejudicada a cultura principal.No caso de áreas em descanso, o capoeiramento regenerativo seria a opção mais viável,como já o praticam os índios e os caboclos.
No caso da pequena horticultura, praticamente todo o mulche deverá ser trazido de fora da área de cultivo. Isso porque as hortaliças nem sempre produzem muita palhada e não suportaria a concorrência com espécies grandes, produtoras de mulche como a mucuna. Assim, a cobertura da horta caseira deverá valer-se do composto de cobertura. Também podem ser usados folhas, palhada ou capim seco e picado – estes últimos deverão ser submetidos à prévia e ligeira fermentação (de dez a vinte dias) para que haja destruição de sementes eventualmente existentes e degradação de substâncias inibidoras do crescimento vegetal presentes na palha seca. Já o uso do composto de cobertura é algo complicado nestas condições, pois envolve a trituração prévia da matéria-prima, geralmente muito grosseira. É, entretanto, a cobertura ideal, e deve ser usada sempre que possível.
A espessura do mulche dependerá do porte da cultura. Na horta, varia entre 3 e 7 cm. Para culturas de grande porte, é conveniente que a espessura seja maior – de 7 a10 cm - o que possibilitará um maior intervalo de tempo entre as reposições.
Finalmente, é preciso considerar que a própria planta já constitui, por si só uma natural proteção ao solo. A fim de aproveitar a própria cultura e ervas espontâneas como verdadeiro mulche verde, o agricultor ecológico pode adotar uma das seguintes estratégias:
- introdução de culturas
companheiras nas linhas e entre linhas da cultura principal;
- redução dos espaçamentos convencionais entre linhas, promovendo maior
raleamento dentro das linhas;
- manejo das ervas espontâneas, injustamente denominadas de “daninhas”,
eliminando as agressivas como as gramíneas, mas preservando as que não
estabeleceram competição com as culturas – sempre que possível, deve-se trocar a
capina pela roçada do “mato”;
- capoeiramento regenerativo usando espécies que melhorem a fertilidade do solo,
como, por exemplo, as leguminosas – esta prática é viável somente para espaços
maiores, pois implica inatividade de parte da área.
Na pequena horticultura são mais viáveis as práticas a, b e c.Se forem utilizadas simultaneamente, elas trarão grandes benefícios para o solo. Poderá ser conveniente, entretanto, manter os espaçamentos convencionais entre as linhas da cultura principal, se pretendermos promover a introdução de culturas companheiras intercalares.
O uso do composto de
incorporação
É a prática de adubação mais tradicional da agricultura orgânica, mas, como
já vimos anteriormente é insuficiente para a preservação da fertilidade do solo.
Constitui, entretanto, um auxílio de grande valor, especialmente na
horticultura, se devidamente associada ao uso da cobertura com o mulche vegetal.
O seu uso poderá ser feito de acordo com as seguintes recomendações.
Hortaliças
Dependendo da fertilidade do solo e das exigências das culturas, o composto
deverá ser incorporado ao solo na profundidade de 20 a 30 cm, conforme o
comprimento das raízes.A dosagem será gradativamente reduzida, uma vez que o
solo sob cobertura do mulche desenvolverá sua fertilidade natural.
Eventualmente, poderão até ser dispensadas novas adições. Como dosagens
iniciais, podem-se usar as seguintes referências: nos canteiros, de 10 a 40
litros por metro quadrado; nas covas, de 1 a 2 litros, usando de 5 a 10 litros
no caso de covas maiores (para chuchuzeiros, por exemplo).
O composto deverá ser espalhado por toda a extensão do canteiro, o que normalmente dispensa o preparo de covas. Estas apenas se justificariam, a título de reforço de adubação, para algumas culturas mais exigentes,como o tomate,pimentão,couve flor e vagem.
No caso de não se dispor de quantidades suficientes,pode-se como medida de economia, incorporar o estrume fresco em toda a área do canteiro, reservando o composto apenas para os sulcos ou para as covas, onde será feito o semeio. Outras alternativas podem ser consideradas:
- incorporar só estrume fresco,
semeando as espécies mais rústicas cinco a dez dias depois,desde que o solo
tenha sido mantido razoavelmente úmido neste período;
- incorporar o estrume fresco, esperar de vinte a trinta dias e depois semear
quaisquer hortaliças; e,
- usar o composto ou estrume apenas no sulco de semeio. Esta última,
evidentemente, constitui uma situação emergencial.
Frutíferas Arbóreas
As covas de plantio, geralmente com as dimensões de 50cm x 50cm x 50 cm
ou 50cm x 50cm x 40 cm, deverão ser adubadas cerca de trinta dias antes do
plantio, com 10 a 20 litros de composto. Posteriormente, deverão ser bem
irrigadas e cobertas com palha ou capim.
Feito o plantio, o uso do composto irá depender do desenvolvimento das plantas. O mais conveniente para o agricultor é que a fertilidade seja suficientemente preservada apenas com o mulche e a roçada da vegetação das entrelinhas. Inicialmente,o composto orgânico poderá ser incorporado (usar de 10 a 20 litros por planta anualmente) em sulcos de 15 a 20 cm de profundidade, cavados na projeção da copa sobre o solo.
Cereais e outras
Culturas como o milho, arroz, abacaxi, cana de açúcar, forrageiras e outras,
dependendo do seu grau de exigência e da fertilidade do solo, receberão de 20 a
40 m3 por hectare de composto orgânico, aplicados no sulco ou na cova
de plantio.
No caso do milho, uma das culturas mais exigentes, a dosagem seria normalmente de 40 m3 por hectare, que representaria cerca de 40l por 10m de sulco. Já o abacaxi e as forrageiras, culturas bem menos exigentes, se contentariam com metade da dosagem ou até menos que isso.
Por: João Francisco Neto
Fonte: Manual de Horticultura Ecológica – Auto suficiência em pequenos
espaços. São Paulo: Nobel, 1995 (pág 43 a 46).
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