Em áreas onde se pratica a agricultura intensiva, tais como regiões da Nova Zelândia, Austrália, Inglaterra e outras áreas da Europa, Estados Unidos e alguns lugares da América do Sul, a forragem de boa qualidade é a base principal para a produção de cordeiros (CHURCH, 1984). Entretanto, a ótima utilização de pastagens por ovinos é difícil de se conseguir (NRC, 1985). As forrageiras não crescem uniformemente e a estacionalidade não permite uma produção constante de forragem durante o ano (EUCLIDES, 1994). Além do mais, forrageiras em estádio de crescimento avançado, apresentam baixos níveis de proteína e altos teores de fibra, fazendo com que ocorra um declínio da digestibilidade e do consumo pelo animal.
A combinação de
parasitas internos e a incapacidade de cordeiros jovens consumir matéria seca
adequadamente, resultam em ganhos de peso nas pastagens 40 a 60% menores do que
os obtidos em confinamento (JORDAN & MARTEN, 1968). Dependendo da época de
terminação dos cordeiros e do tipo de pasto utilizado, a taxa de crescimento dos
cordeiros pode ser muito baixa (HOPKINS et al., 1995a ; HOPKINS et al., 1995b ).
3. CONTROLE DA VERMINOSE ATRAVÉS DO CONFINAMENTO
Na criação de ovinos, uma das maiores barreiras enfrentadas é a verminose. Esta
patologia representa grandes perdas econômicas no rebanho. Segundo PINHEIRO
(1988), o controle da verminose tem relação direta com o aumento no número de
ventres e, conseqüentemente, com a produção de cordeiros.
O terço final da gestação é um dos períodos em que o animal necessita de altos
níveis de nutrientes, pois é o momento destinado ao crescimento fetal. Desta
forma, a alimentação canaliza-se prioritariamente ao cordeiro, e a ovelha
torna-se mais sensível a verminose.
O estresse provocado pelo parto também contribui para o aumento na postura de ovos de parasitas (COSTA et al., 1986). Este mesmo fato ocorre com as fêmeas lactantes. A imunossupressão durante o período periparto, dos quais os hormônios glicocorticóides, adrenocorticóides e a prolactina são citados como causadores da supressão da reatividade dos linfócitos, é responsável pelo fenômeno \\"periparto\\" que consiste em um aumento na quantidade de ovos de nematódeos gastrintestinais eliminados nas fezes, por ovelhas em final de gestação ou lactação (GIBBS & BARGER, 1986; AMARANTE et al., 1992).
Já os cordeiros no pós desmame, a interrupção da lactação leva a uma
condição de estresse, tornando estes animais também mais sensíveis a verminose
e, se houver como agravante um manejo sanitário inadequado, culminará no aumento
da mortalidade. Desta forma cria-se um ciclo que produz um rápido aumento no
grau de infestação dos animais e dos campos, sendo maior o problema quando o
cordeiro permanece por um período prolongado de tempo com a mãe,
estabelecendo-se uma competição entre mães e filhos pelos pastos e concentrados
disponíveis, sendo que, a própria ovelha contamina com ovos de parasitas as
pastagens que servem de alimento para os cordeiros (PINHEIRO, 1988).
No trabalho realizado por SIQUEIRA et al. (1993), cordeiros confinados
apresentaram ganho de peso médio diário (0,153 Kg) superior aos animais mantidos
em pastagem de \\"coast cross\\" (0,088 Kg), apesar da disponibilidade de matéria
seca no pasto estar acima das necessidades dos animais. O grupo de animais que
permaneceu na pastagem apresentou altas infecções por Haemonchus contortus e
Trichostrongylus e a taxa de mortalidade de cordeiros mantidos à pasto foi alta
(16,23%) quando comparada com a do confinamento (0%). Baseado nestes resultados
é que se recomenda fazer a recria de cordeiros em confinamento, principalmente
em propriedades que não possuem pastagens descontaminadas para colocar os
cordeiros desmamados.
4. ANIMAIS PARA O CONFINAMENTO
O ganho de peso no confinamento é
normalmente mais caro do que na terminação à pasto (NOTTER et al., 1991b; MURPHY
et al., 1994). Por isso a escolha de animais que apresentam potencial para ganho
de peso é importante. Alguns dos fatores relacionados com o animal, que afetam o
desempenho no confinamento estão descritos a seguir:
A) Peso ao Nascer dos Cordeiros - cordeiros que nasceram com pesos baixos em
função da má nutrição das ovelhas durante a gestação (principalmente no terço
final), mesmo que receberem uma boa alimentação após o nascimento dificilmente
recuperam o peso até o abate. Segundo a revisão realizada por BELL (1984),
cordeiros que nasceram com 10% a menos de peso, permaneceram até o desmame com
9% de peso inferior ao dos cordeiros, filhos de ovelhas adequadamente nutridas
na gestação. Este menor peso persistiu até 18 semanas após o desmame, o que
significa prejuízo para os sistemas de terminação que abatem cordeiros com 4 a 6
meses de idade.
B) Idade - a idade que o cordeiro apresenta quando inicia a engorda em
confinamento vai afetar principalmente a conversão alimentar. A medida que o
animal se torna mais velho aumenta a deposição de gordura na carcaça e diminui a
deposição de água e proteína, sendo que esta mudança é mais evidente na fêmea.
Consequentemente, a conversão alimentar piora com a idade do animal, em virtude
do custo energético para depositar gordura na carcaça, ser maior (CHURCH, 1984).
C) Sexo - o ganho de peso, a conversão alimentar e as características de carcaça
de animais confinados, podem variar em função do sexo. Os animais inteiros
apresentam um desenvolvimento mais rápido do que os capões e as fêmeas (LLOYD et
al., 1981; DRANSFIELD et al., 1990). Este crescimento mais rápido está em função
da menor deposição de gordura na carcaça, sendo que este menor teor de gordura é
uma característica buscada pelos atuais sistemas de terminação de cordeiros (LEE
et al., 1990). Entretanto, alguns produtores tem relutado em trabalhar com
cordeiros machos inteiros (ARNOLD & MEYER, 1988). Segundo DRANSFIELD et al.
(1990), a carne de animais inteiros abatidos com um peso elevado, é mais seca do
que a dos animais castrados, porém, se os cordeiros forem abatidos jovens, esta
depreciação na qualidade da carne não é observada.
No trabalho realizado por
NOTTER et al. (1991b), cordeiros machos inteiros confinados depois do desmame,
apresentaram um ganho de peso do nascimento até o abate de 368 g/dia, superior
ao dos cordeiros castrados e das fêmeas que foi de 350 g/dia e 335 g/dia,
respectivamente. De acordo com LEE et al. (1990), cordeiros machos inteiros e
cordeiros fêmeas deveriam ser manejados separadamente. Por causa da forte
relação entre peso de carcaça, gordura e a tendência de fêmeas apresentarem mais
gordura a um determinado peso, elas devem ser enviadas para o abate a um peso
inferior ao estipulado para os machos.
5. ALIMENTAÇÃO NO CONFINAMENTO
A influência da nutrição na produção de carne é evidente. A alimentação de
cordeiros recém desmamados e em fase de terminação pode ser em confinamento ou
em pastagens. Em confinamento, aumentando a proteína e a energia na alimentação,
eleva-se o ganho médio diário e melhora-se a conversão alimentar. Os níveis de
proteína na carcaça aumentam linearmente com o aumento de proteína na dieta,
enquanto a composição de extrato etéreo diminui. O nível elevado de energia na
dieta tende a aumentar a deposição de gordura na carcaça. Portanto, a composição
do ganho pode ser alterada de acordo com o regime alimentar no confinamento (ELY
et al., 1979). Sistemas de alimentação que promovem um rápido crescimento do
cordeiro, como por exemplo, o fornecimento de concentrados através do
confinamento, usualmente resultam em uma melhor eficiência alimentar.
Entretanto, o consumo excessivo de concentrados resulta em cordeiros mais gordos
do que aqueles que consomem forragens (McCLURE et al., 1994).
Boas pastagens podem produzir carcaças ovinas de elevada qualidade, com a mesma
eficiência da alimentação em confinamento (ELY et al., 1979). Entretanto, o
ganho médio diário obtido através do pasto pode variar bastante em função da
espécie e do manejo da forragem. Por exemplo, o ganho conseguido através de
pastagens leguminosas é superior ao obtido com gramíneas (McCLURE et al., 1994),
embora o consumo de leguminosas pode causar sabor desagradável na carne (NOTTER
et al., 1991c). Animais destinados para o abate, que são alimentados com dietas
baseadas em forragens por um determinado período de tempo, desenvolvem o tecido
esquelético e o muscular sem excesso de gordura (MURPHY et al., 1994). Segundo
NOTTER et al. (1991b), carcaças de cordeiros produzidas em pastagens podem se
tornar mais atrativas em função da menor deposição de gordura.
Em vários trabalhos que comparam o desempenho de animais em confinamento e em
pastagem, observa-se um maior ganho de peso para animais confinados (NOTTER et
al., 1991b; McCLURE et al., 1994; MURPHY et al., 1994 e McCLURE et al., 1995).
Entretanto, nestes mesmos trabalhos o teor de gordura na carcaça para animais
terminados em confinamento é mais elevado. O problema é que em muitos destes
estudos o peso de abate dos animais foi muito elevado. MURPHY et al.(1994),
abateram os animais com 48 Kg além de utilizar cordeiros castrados, o que
aumenta muito a deposição de gordura. NOTTER et al. (1991b) abateram os machos
com 55 Kg e as fêmeas com 50 Kg. ELY et al. (1979) observaram que cordeiros
abatidos com 40,8 Kg foram mais eficientes em conversão alimentar do que
cordeiros abatidos com 49,9 Kg. Nos Estados Unidos o peso de abate preferido
para cordeiros é de 45 Kg (CHURCH, 1984), o que é muito alto para os padrões do
consumidor brasileiro.
Na exploração de carne ovina, a categoria de cordeiros destinados à engorda é
uma das que apresentam as maiores exigências protéicas. Nesta categoria, alguns
aminoácidos tais como metionina, lisina, cistina, arginina e histidina (VEIRA et
al., 1985), tornam-se limitantes para o máximo ganho de peso, uma vez que a
quantidade disponível para esse tipo de animal é inferior às suas exigências,
mesmo quando é fornecida elevada quantidade de concentrados, sem que estes
concentrados possuam uma fonte de proteína de alta qualidade e baixa
degradabilidade ruminal em sua composição (KLOPFENSTEIN, 1985). Por isso,
algumas dietas de confinamento possuem em sua composição alguma fonte de
proteína protegida para elevar os ganhos de peso. No confinamento realizado por
BONA et al. (1994), cordeiros machos que receberam níveis de 6,6% de farinha de
peixe (baixa degradação ruminal) no concentrado, tiveram um ganho de peso 22,25%
superior ao dos animais que receberam concentrado, cuja fonte proteica era
exclusivamente o farelo de soja, de alta degradação ruminal.
6. AVALIAÇÃO ECONÔMICA DA TERMINAÇÃO DE CORDEIROS
Diferentes sistemas de produção de cordeiros podem produzir diferentes taxas de
crescimento, mas este ganho de peso não pode ser equiparado diretamente com a
lucratividade dos sistemas. Os sistemas que promovem rápido crescimento dos
cordeiros, usualmente alcançam maior eficiência alimentar, e requerem poucos
dias para os cordeiros atingirem peso de mercado, mas também exigem o uso de uma
alimentação mais cara.
Sistemas de produção baseados em forragens, usualmente
estão associados com ganho de peso mais baixos, mas o custo total do ganho deve
ser menor do que os de sistemas de produção mais intensivos. Atualmente, além do
peso do animal, as características de carcaça vão influenciar no retorno
econômico do sistema utilizado. Historicamente, os preços de cordeiros estão em
função do peso vivo, mas há uma grande preocupação em não produzir somente em
quantidade mas também com qualidade. Portanto, a qualidade da carcaça do
cordeiro poderá futuramente afetar a avaliação econômica dos sistemas de recria
e terminação dos cordeiros (NOTTER et al., 1991a).
No estudo realizado por MACEDO (1998), os cordeiros confinados apresentaram
maior retorno econômico (+R$269,13), tendo produzido 212,76 Kg de carcaça a mais
do que os de pastagem. OTTO et al. (1998) tiveram um custo com alimentação
superior para os animais terminados em confinamento, entretanto, 1 hectare de
pasto de azevém engordou 30 cordeiros enquanto 1 hectare de milho produziu
silagem para engordar 290 cordeiros em confinamento. Portanto, o lucro e a
produção de carne por hectare foi superior para os cordeiros terminados em
confinamento em relação aos terminados em pastagem.
CONCLUSÕES
Com base na revisão bibliográfica realizada, pode-se tirar
algumas conclusões:
A implantação da recria e engorda de cordeiros em confinamento, depende de uma avaliação cuidadosa da propriedade que se está trabalhando, da sua localização e características ambientais, da taxa de lotação, tipo de pastagens disponíveis, época de terminação dos cordeiros e característica do animal a ser confinado.
O confinamento é recomendado quando a disponibilidade de pastagens de qualidade para os cordeiros é baixa. Também, em regiões onde as condições ambientais propiciam uma elevada contaminação dos pastos por parasitas, juntamente com elevadas taxas de lotação, o desmame precoce e a recria e engorda de cordeiros em confinamento, são técnicas de manejo que controlam as perdas causadas pelos vermes, sem necessitar do uso abusivo de vermífugos.
Em regiões onde o valor da terra é elevado, a produção de carne por hectare deve ser maximizada, o que só é conseguido com técnicas intensivas de produção. O animal a ser confinado deve ser jovem e apresentar potencial de ganho de peso elevado. Se a alimentação utilizada nos confinamentos é de qualidade e, provavelmente, de alto custo, espera-se que o cordeiro responda a esta melhor nutrição com taxas de crescimento elevadas e ótima eficiência alimentar.
Cordeiros machos que são abatidos ainda jovens não necessitam ser castrados. A castração aumenta a deposição de gordura na carcaça além de piorar a eficiência alimentar.
Fêmeas devem ser abatidas com peso inferior ao dos machos, por depositarem mais gordura na carcaça e serem menos eficientes no ganho de peso. Excesso de concentrado na dieta do confinamento, e abate de animais muito pesados, produz carcaças com altos teores de gordura.
A decisão da implantação do confinamento, depende principalmente, do maior retorno econômico, que este sistema intensivo de terminação de cordeiros, pode propiciar.
Autores: SÁ,J.L. e OTTO DE SÁ,C.
Fonte: www.crisa.vet.br
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