Pode-se afirmar que milhares sobrevivem a inclementes secas por terem os chifres.
Seria todavia apenas essa a utilidade dos chifres?
A mitologia diz que não, pois os deuses da antiguidade, muitas vezes, exibiam portentosos chifres, como sinal de poder.Também os reis utilizavam elmos e capacetes com chifres.Bem próximo dos tempos históricos, encontra-se o patriarca Moisés, com chifres, aponto de ter sido fielmente retratado por Michelangelo,com tais atributos córneos, indicando sabedoria e intercâmbio com a divindade. Depois de Cristo, muitos bárbaros invasores e guerreiros, utilizavam chifres, até como forma de amedrontar os inimigos. Os guerreiros da China, da Germânia, da Escandinávia, da áfrica, de todos os rincões, sempre gostaram de chifres. Na modernidade, muitas gangues de rua utilizam capacetes com chifres, evocando alguma lembrança atávica do passado. O chifre, portanto, é cheio de simbolismos misteriosos.
O certo é que os chifres indicam muitas coisas. O próprio Jesus elogiou as ovelhas e espinafrou o bode chifrudo. A Igreja aproveitou a chance e entronizou ovelhas em milhares de gravuras, ao mesmo tempo em que condenou o bode como criatura infernal, com seus poderosos chifres. Até hoje,os caprinos continuam pouco estimados por conta da perseguição doutrinária que consta nas páginas da Bíblia.
Não admira, portanto, que pouca gente queira dar importância aos apêndices córneos instalados no topo da cabeça.
Cientificamente, alguns estudiosos observaram que os animais chifrudos eram mais calmos, não tinham “cabeça quente”, viviam melhor, sobreviviam melhor.Seria por causa dos chifres? Qual seria o papel dos chifres no clima tropical? E no clima gelado? As respostas teimavam em não vir.Milhares ou milhões de pessoas saíram das universidades com os diplomas nas mãos, pesquisaram milhares de temas sobre caprinos e ovinos,mas sempre fugiam da finalidade dos chifres. Até hoje, pouquíssima gente conhece qualquer estudo sobre o assunto.
O máximo que a Ciência fizera, até então, era afirmar que os chifrudos eram mais “machos”. As fêmeas preferiam os chifrudos e só em último caso escolhiam os mochos. Essa escolha poderia ilustrar o instinto de preservação da espécie, ou devoção ao mais forte. O fato é que muitos carneiros mochos são mais perigosos que os chifrudos. Entre os bovinos, a maior parte dos acidentes acontecem nas raças mochas.Parece que os mochos têm “cabeça quente”. Até onde isso seria verdade?
Finalmente, começaram a surgir alguns resultados de pesquisas. Um artigo de G.W. Montgomery, escrito em1996, sobre o mapeamento do locus do chifre (HO) em ovinos (cit. Michigan Shepherding, in Black Sheep Newsletter, n. 106), diz que o chifre pode variar muito, desde aqueles muito compridos, grossos, ondulados, firmemente presos ao osso frontal, até os animais mochos ou de pouco chifre, com depressões côncavas no crânio. Muitos tipos de intermediários são possíveis,cujos chifres podem ou não estar presos no osso frontal.
A Ciência admite que os chifres são tecidos vivos e, por isso, a parte óssea interna e o tecido vascular que o cerca não podem ser expostos ao gelo por causa da extremidade do cérebro. A envoltura externa de queratina do cérebro presumivelmente oferece pouco recurso como isolante.
A Ciência já acredita que os chifres têm um papel termo-regulador, com estruturas de dissipação do calor e isto beneficia o animal no clima quente. Essa perda de calor, todavia, pode ser prejudicial no inverno.Assim, uma quantia considerável de calor pode ser perdida pela superfície do chifre, particularmente em espécies de longos cornos.
Tomando esta característica como padrão, pode-se dizer que a “área máxima de superfície que o animal exige no inverno pode limitar o tamanho de seu chifre”.
A conclusão é que a medida da parte óssea vascularizada do chifre, em comparação com seu comprimento total, pode ser menor para as espécies que vivem em climas frios do que para as que vivem em climas quentes.
Manfred Hoefs (2000),concluiu que a conservação de calor é importante para os ovinos que vivem em climas frios, enquanto para os que vivem em ambientes quentes, o aumento da dissipação de calor seria vantajosa. Saiu medindo os chifres em várias regiões para verificar o acerto da hipótese. As ovelhas de chifres finos das regiões subártica e ártica apresentaram núcleos menores, com índices de 6.9 – 7.3 cm2/Kg, enquanto tipos dos desertos apresentaram índices pelo menos duas vezes maiores (15.1 a 16.5 cm2/Kg).
Outros tipos de ovinos apresentaram índices intermediários.O aumento ou diminuição do chifre, portanto, era – de fato – uma resposta à temperatura ambiente. (Canadian Journal zoology, 78 (8): 1419 – 1426).Manfred mediu 378 crânios de ovinos (258 machos e 120 fêmeas), cobrindo a maioria das subespécies de ovinos selvagens.
Foram utilizados o comprimento e a circunferência do chifre para calcular a superfície do núcleo.Este plexo altamente vascularizado constitui a área de radiação.
Um índice simples de capacidade de troca de calor foi calculado por meio da divisão das superfícies combinadas de dois núcleos de chifres pela massa do animal. Este índice constituiu um padrão, através do qual diferentes tipos de ovinos podiam ser comparados, bem como permitir a detecção de correlações entre as gradações ambientais, que poderiam apontar uma regra de termo-regulação para os núcleos de chifres.
Pode-se afirmar que, para ovinos que vivem em climas frios, a conservação de calor é importante, enquanto para os que vivem em ambientes quentes, o aumento da dissipação de calor seria vantajoso. Os dados confirmam esta hipótese.
A ovelha de chifre fino (ovis dalli e Ovis nivicola) das regiões subártica e ártica do noroeste da América do Norte e norte da Sibéria apresentam núcleos menores, com índices de 6.9 – 7.3 cm2/Kg, enquanto os tipos dos desertos apresentam índices pelo menos duas vezes maiores. Por exemplo, as subespécies de deserto, como o Bighorn americano (Ovins canadensis nelsoni, Ovis canadensis mexicana, Ovis canadensis cremnobates) apresentam índices variando entre 15.1 a 16.5 cm2/Kg.Outros tipos de ovinos apresentam índices intermediários.
Conclui Manfred que “esta tendência evolutiva para variar o tamanho do núcleo do chifre como resposta à temperatura ambiente, independe da tendência paralela de aumentar o tamanho do chifre tendo em vista um melhor sucesso na área reprodutiva”. Ou seja, o chifrudo pode ser o preferido das fêmeas, até por que está mais preparado para enfrentar os difíceis momentos da temperatura ambiente. (The thermoregulatory potential of Ovis horn cores – Manfred hoefs – Lata. J. Zool./ Rev. Lata. Zool. 78(8): 1419 – 1426 (2000)
A pesquisa foi mais longe e tentou verificar se os anéis eram semelhantes aos que surgem nas vacas. Concluiu que, durante a fase de crescimento, muitos anéis primários ou anuais são formados no chifre, assemelhando-se a rugas, ondulações, ou suaves elevações. São separados por séries complementares de entalhes rasos, primários ou anuais. Há entalhes que acontecem a intervalos aproximadamente anuais devido à cessação do crescimento no inverno, aos períodos de seca, ou à atividade de acasalamento.Carneiros bem alimentados, removidos de seu ambiente natural e colocados sob condições artificiais, perdem os entalhes secundários. Isso, porém é outra história fascinante e fica para outra ocasião. Os chifres sempre encantaram a humanidade.
Fonte: Revista O Berro, nº 76 – Abril - 2005
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