Frangos de corte: pré-abate de qualidade

"Pequenas alterações positivas visando à minimização das perdas nas operações pré-abate resultarão em grandes benefícios para toda a cadeia produtiva da avicultura de corte brasileira"

Todavia, a qualidade do produto final será o próximo horizonte a ser alcançado, visto que o consumidor exige cada vez mais atributos que possam conferir a segurança dos alimentos. Estas exigências, por sua vez, trarão mudanças e a necessidade do conhecimento dos muitos pontos críticos inerentes aos processos, para que tais modificações resultem em aumento de produtividade e numa maior inserção do frango brasileiro no mercado externo.

Desta forma, o artigo buscará especificar as principais etapas das operações pré-abate para frangos de corte e apontará, também, os principais entraves e as dificuldades a serem solucionados em cada uma das etapas. Desde a pega das aves até o abate, são enfocados pontos críticos importantes, bem como são apresentadas algumas possíveis soluções na tentativa de auxiliar na minimização dos impactos negativos que afetam a qualidade do produto final.

A identificação das perdas localizadas durante as operações pré-abate torna-se um ponto crucial na otimização dos processos de produção. Sendo que atrelar estes conhecimentos à redução de perdas é fundamental atualmente, pois trata-se do acompanhamento de observações técnicas das operações do chamado seguimento “pós-porteira”. Visto que, enquanto várias são as pesquisas direcionadas para o segmento de “Dentro da porteira”, pouca coisa se sabe sobre o que realmente ocorre com as aves após deixarem as granjas.

 

Pega ou apanha das aves

Normalmente, nesta etapa, os animais sofrem um estresse acentuado, em função do tipo de pega “pelos pés”, ainda muito utilizado nas granjas. Este tipo de pega geralmente resulta em uma aglomeração dos animais em uma determinada área do galpão de criação, sem mencionar que é uma operação altamente estressante para as aves, pois elas se debatem muito durante este processo, resultando em injúrias corporais e danos à carcaça. Hoje, isto pode ser evitado devido à adoção de novas técnicas, como a pega pelo dorso (método japonês), através do qual evita-se danos à carcaça e mantêm os animais menos agitados, facilitando, inclusive, a ação dos funcionários responsáveis por esta tarefa.

Deve-se considerar durante a pega as condições mínimas de bem-estar animal, uma vez que muitas injúrias poderão ser ocasionadas por esta operação, quando mal executada. Aliado à eficiência da pega, deve-se observar, também, as condições de conforto térmico do galpão de criação. A observação dos horários mais quentes ou mais frios do dia pode determinar o acionamento dos equipamentos responsáveis pela climatização dos ambientes, com o intuito de oferecer maior conforto aos animais durante esta etapa. Isto só será possível com o acompanhamento contínuo das variáveis ambientais (temperatura e umidade relativa), o que poderá ser feito com o auxílio de um termohigrômetro, que deverá ser instalado no interior do galpão. Esta preocupação favorece o uso racional e preciso de ventiladores e nebulizadores no galpão, evitando que as aves sofram os efeitos extremos do frio ou calor, em qualquer estação do ano. Aliado a isto, um recurso rápido e pratico de se diagnosticar o ambiente interno do galpão é através do uso das Tabelas de Entalpia, desenvolvidas pelo Núcleo de Pesquisa em Ambiência (ESALQ/USP) e disponíveis para download no site www.nupea.esalq.usp.br.

Na tabela correspondente à idade do lote, a partir da inserção dos valores atuais de temperatura e umidade relativa do galpão, é mostrado ao funcionário responsável pela granja se as aves encontram-se nas zonas de conforto térmico, alerta, critica ou letal, por meio da aplicação do Índice Entalpia de Conforto (IEC). Com isto, tem-se uma ferramenta facilitadora de tomada de decisão sobre o controle ambiental da instalação, inclusive na etapa da pega ou apanha das aves.

Quanto à etapa de pega, perguntas tais como qual o melhor turno (manhã, tarde ou noite) para se realizar esta operação, qual o melhor método para pegar as aves, ou ainda quantas aves deverão ser carregadas em cada uma das mãos pelos responsáveis por esta etapa, para que menores porcentagens de perdas possam ser alcançadas, estão sendo recentemente respondidas pela pesquisa realizada por Barbosa Filho (2008), na qual os resultados indicam que, independentemente da estação do ano (inverno ou verão), o turno da tarde é o mais prejudicial as aves do ponto de vista do estresse térmico.

Carregamento das aves

As preocupações quanto aos pontos críticos desta etapa se iniciam com a analise das condições das caixas adotadas para a contenção dos animais durante o transporte. As caixas utilizadas devem ser padronizadas, de forma a oferecer os menores danos possíveis para as aves, além de facilitar as trocas térmicas e favorecer o conforto dos animais.

Porém, tais condições são pouco observadas e, em certas situações, o descaso com estes cuidados poderá resultar em perdas significativas em todo o processo. Caixas quebradas e fora dos padrões recomendados para o transporte das aves causam prejuízos ao longo das etapas pré-abate, seja por danos ao produto final, por mortalidade durante o transporte ou espera. Um planejamento adequado e antecipado das condições das caixas torna-se decisivo no sucesso e na garantia de qualidade ao final da cadeia produtiva de frangos de corte.

O manejo do molhamento das aves após o carregamento das caixas no caminhão de transporte requer também atenção especial visto que é um recurso a ser utilizado de forma sustentável, devido à questão atual da limitação da água. Além de possuir impactos diretos sobre o conforto térmico das aves.

Devem ser observadas a época do ano e a condição meteorológica externa para que a decisão sobre molhar ou não as aves não afete negativamente a sua condição física e fisiológica até o final das operações. A quantidade de água lançada também é algo a ser repensado, pois quando feito o molhamento, normalmente, não se tem a preocupação com o quanto molhar e com o tempo de duração do procedimento. Nota-se, portanto, um desperdício acentuado de água e um excesso que incide sobre as aves, resultando em estresse aos animais.

Ao final da operação, as primeiras aves que foram carregadas estarão mais susceptíveis às condições de estresse térmico, dado que as primeiras caixas que foram carregadas estarão expostas a uma determinada condição ambiental por um tempo maior quando comparadas com as que foram carregadas por último. Outro problema a ser discutido é o da ergonomia dos trabalhadores que atuam nesta etapa.

Eles são submetidos ao levantamento de caixas a serem inseridas nas fileiras da carga e, na maioria das vezes, o peso destas caixas carregadas poderá tornar-se, em longo prazo, um problema de insalubridade, principalmente quando se tem uma altura de caixas no caminhão acima das medidas da pessoa responsável por esta tarefa. Pensar no trabalhador também é prioridade, pois o bem-estar dele repercute de forma direta sobre o bem-estar e a qualidade final das carcaças.

Na operação de carregamento das aves, questões como qual o melhor período para se realizar esta etapa, ou qual a densidade ideal de aves por caixa, também já estão sendo respondidas pelas pesquisas realizadas pela equipe de avicultura do NUPEA/ESALQ/USP (Barbosa Filho, 2008). Quanto aos melhores turnos para se realizar a etapa do carregamento das aves, estes são o turno da manhã e o da noite, devendo-se evitar, como no caso da pega, o turno da tarde. No que diz respeito à densidade de aves por caixa, esta deverá variar em função da época do ano (inverno ou verão) e também em função dos turnos (manhã, tarde e noite), optando-se sempre por colocar menos aves por caixa nas estações e turnos de temperaturas mais elevadas (estação de verão e turno da tarde).

Medidas como evitar que a carga de aves fique diretamente exposta a ação do sol durante o período do carregamento também deverão ser adotadas uma vez que poderão ocorrer perdas por estresse térmico, principalmente nas primeiras aves que serão carregadas. Isto poderá ser feito com a adoção de medidas simples como a colocação de tela negra (sombrite) sobre a carga do caminhão enquanto o mesmo é carregado, ou com o plantio planejado de arvores no entorno dos galpões, fornecendo sombra aos mesmos.

Transporte das aves

É uma das operações pré-abate de maior influência sobre a qualidade do produto final, pois determina o tempo de exposição das aves às condições meteorológicas e a intensidade de fatores físicos e mecânicos que afetam o bem-estar dos animais durante o percurso da viagem. Assim, o planejamento estratégico sobre esta etapa é muito importante e todos os pontos críticos devem ser observados e considerados com antecedência no preparo para o transporte dos frangos.

A condição ambiental é essencial para que possam ser feitas algumas modificações na carga e na conduta do motorista perante a mesma. Para isto, o planejamento antecipado do tempo de viagem é uma questão fundamental, assim como a temperatura, umidade relativa e a previsão de chuvas no dia da viagem. As variáveis ambientais (temperatura e umidade) auxiliarão os responsáveis pela programação do transporte na decisão do turno em que o caminhão trafegará e qual a melhor distância “granja-abatedouro” em função destas informações.

Grandes distâncias são incompatíveis com as horas mais quentes do dia já que as aves ficarão mais expostas ao calor excessivo. A chuva também é bastante importante na escolha do trajeto pois, no caso de estradas de terra, a previsão de chuva poderá alterar a escolha das granjas em função deste tipo de estrada.

Dependendo da condição térmica do dia, um atraso na viagem, devido a um atolamento do caminhão em um dia de chuva, poderá levar à morte centenas de aves. As estradas exercem impactos consideráveis na carga, fato que deve ser considerado no planejamento de um transporte de frangos de corte. No caso de estradas de terra, a irregularidade das vias exerce uma outra influência nas aves, ainda pouco conhecida, que é a vibração da carga.

Sabe-se que efeitos nocivos à carcaça são originados desta componente física, afetando a qualidade do produto final. Nas estradas asfaltadas, outro ponto crítico é a velocidade do vento, que pode gerar perdas nas caixas da frente (parte dianteira do caminhão), que sofrem a ação direta do vento. Para isto, a utilização de lonas plásticas como anteparo ao vento nas caixas da parte da frente e superior do caminhão é fundamental para minimizar a mortalidade de frangos nesta região da carga.

Contudo, não basta somente a inserção deste recurso, pois o manejo é o que definirá a eficácia do uso das lonas. Se no percurso, inicia-se uma chuva e após certo tempo ela para e há a incidência de sol, torna-se imprescindível que o caminhoneiro pare o caminhão sob um local protegido, posicione as lonas para evitar o efeito combinado da velocidade do vento com o frio durante o percurso com chuva e, logo após o fim desta, pare o caminhão novamente e recolha as lonas, facilitando a circulação do ar nas primeiras fileiras e evitando uma elevação da temperatura interna das aves nestas caixas.

O trabalho de treinamento do motorista e das demais pessoas envolvidas na etapa do transporte é necessário para se evitar as perdas nesta fase, já que eles são os responsáveis pelo monitoramento contínuo da carga durante o trajeto da viagem, possibilitando a chegada dos frangos ao abatedouro nas melhores condições para as etapas finais das operações pré-abate. Em função do que foi abordado, deve-se considerar que toda a logística de transporte de frangos de uma empresa integradora deve estar associada a todos estes fatores, e não somente à disponibilidade de aves para o abate.

Na etapa de transporte, os principais questionamentos dizem respeito ao melhor turno e a melhor distancia granja-abatedouro para se realizar a viagem. Além disso, o tempo de transporte, as condições ambientais e a época do ano também deverão ser levados em consideração na elaboração de um planejamento logístico de transporte das aves. Quanto a isso, pesquisa recente de Barbosa Filho (2008), demonstrou que deve-se transportar as aves preferencialmente nos turnos de temperaturas mais amenas, ou seja, nos turnos da manhã e noite, devendo-se evitar o turno da tarde, onde as condições ambientais poderão causar estresse as aves, independentemente da estação do ano. No que diz respeito às distancias e aos tempos de transporte, pôde ser verificada a ocorrência de maiores perdas (mortes na chegada) para transportes realizados em distâncias mais longas e, consequentemente, em tempos maiores.

Quanto à velocidade de transporte, o que pôde ser verificado foi que a medida que a velocidade do caminhão aumenta, tem-se uma melhor circulação do ar dentro da carga, o que favorece a perda de calor das aves e retira o excesso de umidade do interior da carga.

O estudo realizado por Barbosa Filho também avaliou o microclima a que as aves estavam submetidas no interior da carga dos caminhões, para cada turno e estação do ano pesquisada. Os resultados demonstraram que as partes inferior e central da carga são as mais susceptíveis a ocorrência dos chamados “bolsões de calor” e, portando, regiões mais propícias a ocorrência de perdas durante o transporte das aves. Este estudo também evidenciou as diferenças encontradas nos valores de umidade relativa ao longo da carga, resultado da heterogeneidade da prática do molhamento da mesma. Esta diferença de umidade provocada pela desigualdade de molhamento ressalta a importância e necessidade de se estudar melhor esta pratica e atentar para o fato de quando se deve procedê-la ou não.

Espera no abatedouro

A importância da espera se resume em oferecer, dentro de um espaço de tempo adequado, condições térmicas satisfatórias para manter o animal em conforto após o transporte e até a chegada na linha do abate. Neste contexto, a espera deve atender este objetivo perante as diferentes condições ambientais, horários do dia, da logística de transportes e do fluxo de abate. Com base na condição climática brasileira, a preocupação com o ambiente onde se encontram os caminhões na espera é primordial, pois todos os cuidados nas primeiras operações pré-abate poderão ser perdidos se a espera no abatedouro não for adequada.

Tanto a nebulização quanto a ventilação devem ser bem distribuídas ao longo da sala de espera, com o correto acionamento das mesmas e de forma racional, sem desperdício de água e energia. Nota-se, na maioria dos casos, que tal recomendação não é padronizada, pois pouca importância é dada para esta etapa. Desta forma, observam-se salas de espera sem um bom gerenciamento de controle ambiental, outras sem nenhum recurso e, em casos mais críticos, a espera consiste em manter os caminhões expostos a céu aberto, sem a preocupação com a excessiva exposição dos mesmos às variáveis meteorológicas, ocasionando grandes perdas ao final do processo produtivo.

É necessário que um funcionário seja responsável por esta fase, com a função contínua de controlar, manejar e planejar corretamente todos os recursos e as condições para a adequada espera pré-abate. Para tanto, ele deve ser treinado adequadamente, de forma a conhecer o processo, os pontos críticos e os instrumentos e as ferramentas disponíveis para estes fins. O emprego de termohigrômetros (medidores de temperatura e umidade relativa) e a comunicação intensiva com os responsáveis pelas demais etapas são detalhes importantes para que todo o processo seja eficaz.

O controle da capacidade da sala de espera é importante para se evitar que caminhões carregados de aves fiquem expostos ao sol, afetando a condição de bem-estar dos animais, além de facilitar as perdas anteriores à linha de abate. Ligado a este fator, o planejamento coerente da lotação máxima da sala de espera deve ser conjugado ao estudo do fluxo de caminhões no abatedouro e, assim, adaptá-la segundo as necessidades da empresa.

O tempo de espera é outro ponto crítico deste processo, devido à desinformação sobre o intervalo ideal em que os caminhões permanecem estacionados. Para cada situação, época do ano, horários do dia, condições climáticas e meteorológicas, existirá um tempo ideal para que as perdas sejam minimizadas. Este importante fator deve ser um dos principais pontos a serem levados em consideração no planejamento adequado da etapa de espera pré-abate. Tal ítem deve ser discutido e modificado constantemente, segundo as principais mudanças na rotina das operações.

No que se refere aos questionamentos na etapa de espera, estes dizem respeito principalmente a qual o tempo ideal de espera para o abate, bem como quais deverão ser as condições ambientais dos galpões de espera, para que as aves possam recuperar suas condições normais de conforto antes de serem abatidas. Pesquisas direcionadas a esta etapa pré-abate e que já estão respondendo estas questões podem ser encontradas nos estudos realizados atualmente por Barbosa Filho (2008) e Vieira (2008).

Em suma, são muitos os detalhes e desafios a serem alcançados com novos estudos e discussões sobre este importante tema, assim como as ações em direção à constante melhoria do setor. Todavia, pequenas alterações positivas visando à minimização das perdas nas operações pré-abate resultarão em grandes benefícios para toda a cadeia produtiva da avicultura de corte brasileira, tornando-a mais lucrativa, competitiva e condizente com as condições mínimas de bem-estar animal.



Autores:
José Antonio D. Barbosa Filho,

Frederico Márcio C. Vieira,

Marco Aurélio N. da Silva,

Danilo de B. Garcia,

Aaron Hildebrand,

Iran José O. da Silva


Fonte: Revista AveWorld - Edição 35

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